Corpo de Perón é levado a sua última morada
Elías García Buenos Aires, 17 out (EFE).- No dia em que são completados 61 anos da revolução que tornou Juan Domingo Perón um mito, e principal protagonista da história política argentina do século XX, o corpo do ex-presidente é levado a sua última morada.
Um sítio na cidade de San Vicente, na província de Buenos Aires, abriga o terceiro túmulo do homem que foi três vezes presidente da Argentina, cujo corpo já esteve na residência presidencial de Olivos, de onde foi tirado pelo ditador militar Jorge Rafael Videla pouco depois do golpe de 1976, e no cemitério de Chacarita, na capital do país.
O sítio de San Vicente foi comprado por um tio de Perón, que o registrou em seu nome em 1947. Para o general e Evita, sua segunda esposa, era um refúgio, um local para afastar-se dos problemas. "San Vicente - escreveu Perón em suas memórias - era o refúgio do amor, o descanso de todo o trabalho".
Na propriedade de 19 hectares situada a 40 quilômetros da capital foi construído um museu que reúne a história e os símbolos do peronismo. Agora, o local receberá, em um mausoléu, os restos de Perón, mumificados e em perfeito estado de conservação, exceto pela ausência das mãos. Em 1987, seu túmulo no cemitério de Chacarita foi arrombado. O bastão de comando foi roubado e as mãos do cadáver foram cortadas, em um incidente ainda não esclarecido.
O transporte do corpo acontece no chamado "Dia da lealdade peronista", que lembra 17 de outubro de 1945, quando milhares de operários tomaram a Praça de Maio, em frente à Casa Rosada (sede do Governo), para reivindicar, e conseguir, a libertação do então vice-presidente e secretário do Trabalho, que fora destituído e detido.
Naquele momento, começou a construção do mito. No ano seguinte, Perón foi eleito presidente com uma maioria arrasadora. Reeleito em 1951, foi derrubado em 1955 por um golpe cívico-militar, a "revolução libertadora". Exilado, morou no Paraguai, na República Dominicana, no Panamá e na Espanha.
Retornou à Argentina em 1973, um ano antes de sua morte, e voltou a ser eleito presidente, com sua terceira esposa, María Estela Martínez, a "Isabelita", como vice.
As origens de Perón estão envoltas em um halo de mistério.
Sabe-se sabe foi filho de pais solteiros: Juan Perón, um fazendeiro dos Pampas, e Juana Sosa, descendente pura de índios mapuches.
Perón manteve uma proposital ambigüidade sobre dados importantes de sua vida: não estão claros a data de seu nascimento (7 de outubro de 1893 ou 8 de outubro de 1895), nem o local (uma fazenda em Roque Pérez ou a cidade de Lobos). Há dúividas até mesmo sobre seu próprio nome (Juan Sosa, Juan Domingo Sosa ou Juan Domingo Perón).
Quando, aos 13 anos, Perón ingressou no Colégio Militar, havia poucos indícios de que aquele rapaz se tornaria um verdadeiro ídolo da classe operária que dedicaria sua vida à política com a idéia de "transformar a Argentina em um país com justiça social, soberania política e independência econômica".
Entre 1939 e 1941, foi adido militar na Itália, e se tornou admirador de Benito Mussolini e do fascismo, que definiu como "um ensaio de socialismo nacional, nem marxista nem dogmático".
Mas não foi um fascista puro. Na verdade, Perón assimilou todas as correntes políticas do século XX.
"Funcionava (...) adaptando-se ao outro", afirma o escritor Horacio Vázquez Rial, autor de uma biografia do general. "Para cada situação política, há pelo menos duas frases de Perón, contraditórias entre si e ambas razoáveis".
O peronismo teve características personalistas e autoritárias, mas as eleições que o general venceu foram limpas. Perón governou, nas palavras de Vázquez Rial, em uma democracia autoritária, ou um regime autoritário respaldado pela maioria.
Sua primeira candidatura foi apoiada pela Igreja, mas em 1954 ele enfrentou o poder eclesial, que apoiou a criação de um partido democrata-cristão.
Perón, que se considerava democrata e cristão, reagiu de maneira fulminante: anulou a obrigatoriedade do ensino religioso, aprovou a lei do divórcio e legalizou os prostíbulos.
Essa foi uma das muitas batalhas travadas pelo general, que não teria gostado que seu corpo fosse embalsamado, nem queria o mesmo destino para o de Evita.
O embalsamamento de Evita foi uma imposição da Confederação Geral do Trabalho (CGT), maior central sindical da Argentina.
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