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BOLETIM INFORMATIVO - JUNHO/2008

Dívida argentina já bate a de 2001

País deve mais hoje do que na época da moratória; analistas alertam que novo calote pode estar a caminhoMarina Guimarães

A dívida pública da Argentina já é superior ao nível registrado em dezembro de 2001, quando o país declarou a maior moratória de sua história. Três anos após a reestruturação que aplicou um dos mais graves calotes do mundo, a dívida chegou a US$ 114,7 bilhões, representando 56% do Produto Interno Bruto (PIB). Somando os bônus que continuam em default nas mãos de credores que se negaram a entrar no swap (troca de títulos) em 2005, e continuam na Justiça para recuperar o dinheiro investido, mais a dívida do Clube de Paris, o valor vai a US$ 170 bilhões, 67% do PIB.

Em dezembro de 2001, quando o default foi declarado, a dívida argentina era de US$ 144,2 bilhões, 54 % do PIB. "Se a credibilidade da Argentina continuar caindo na velocidade atual, o país terá dificuldades para conseguir crédito no próximo ano e honrar seus compromissos financeiros", afirmam os economistas argentinos Martín Krause e Aldo Abram, que apresentaram ontem um estudo intitulado "Dívida e Inflação: voltar ao futuro".

Os diretores do Centro de Investigação de Instituições e Mercados da Argentina, da Escola Superior de Economia e Administração de Empresas, alertam para a "grave de crise de confiança no governo, que trouxe de volta os fantasmas da inflação e do default".

Krause e Abram avaliam que, se o governo argentino não começar a fazer algo agora para recuperar a credibilidade, o país corre risco de um calote e de ter de renegociar sua dívida em um prazo muito curto.

"Essas coisas não se ajeitam da noite para o dia. O mercado internacional está fechado por causa do default com os holdouts (um tipo de bônus) e com o Clube de Paris; no mercado interno há a crise de credibilidade; e (Hugo) Chávez não poderia absorver todo esse volume", analisa Krause.

A referência ao presidente da Venezuela diz respeito à relação de dependência que a Argentina tem tido com aquele país desde 2005. Chávez já comprou US$ 6,4 bilhões em bônus argentinos para financiar o país nos últimos três anos.

Mas o preço que o governo argentino tem pago por sua falta de crédito no mercado financeiro internacional é alto. Pelo último bônus colocado ao governo venezuelano, a Argentina teve de pagar taxa de juros de 13%. Krause comparou a situação com a do Brasil, "que tinha um custo de dívida muito pior que o da Argentina em 2001 e, recentemente, atingiu o grau de investimento, que lhe permitiu vender bônus de 10 anos com taxa de 5,3%".

Este ano, o governo tem de quitar ou renovar US$ 8,5 bilhões, aos que se somam US$ 6,1 bilhões de juros, ou seja, um total de US$ 14,6 bilhões. No ano que vem, será quase o dobro. O governo espera cobrir essas necessidades de financiamento colocando bônus para as agências governamentais, como a Anses (de Seguridade Social), Afip (Receita Federal local) e Banco Central, além das colocações de papéis para a Venezuela.

Para o economista Aldo Abram, a Argentina tem um problema de confiança. "Quando a credibilidade cai, não há financiamento. A confiança interna na Argentina está caindo e, à medida que isso ocorre, vai perdendo crédito", completa. O economista Martín Krause, por sua vez, lembra que, com o crédito internacional fechado para a Argentina; a ajuda limitada de Chávez e a queda da credibilidade interna, ninguém vai emprestar dinheiro para o país.

Nesse sentido, os dois especialistas comparam os gráficos sobre a confiança no governo durante os anos de 2000/2001 com 2007/2008, que mostram uma grande similitude.

No ano em que Fernando de la Rúa assumiu o governo, havia um alto nível de confiança, que foi caindo até chegar à sua renúncia e ao default. Ao menos a primeira parte dessa história se repete com a presidente Cristina Kirchner.

Ela desfrutava de um elevado nível de confiança em dezembro, quando assumiu a presidência, que caiu vertiginosamente após os seis primeiros meses de mandato. "O governo precisa de um choque de confiança urgente para reverter as expectativas negativas", sentenciou Krause.

Ele explica que esse choque deve obrigatoriamente incluir medidas para dar transparência ao Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) em sua elaboração dos dados de inflação e a abertura da negociação com o Clube de Paris e os bônus holdouts. "O governo se nega a negociar com o Clube de Paris unicamente por não aceitar uma carta de intenções com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e isso é um capricho que custa caro", disse Abram.

Os primeiros seis meses do governo de Cristina foram marcados, desde o dia de posse até o momento, por crises que abalaram a população. Primeiro, foi a confissão dos envolvidos com a maleta de dólares que tentaram entrar na Argentina sem declarar que o dinheiro era para a campanha presidencial; depois, houve um enfrentamento com o sindicalista mais poderoso do país, Hugo Moyano, que acabou terminando como aliado do governo; imediatamente após, começou a crise com o setor agropecuário, que já dura mais de três meses, deixando o país à beira do caos, com a escassez de alimentos e de combustíveis.

Paralelamente à crise, está a herança deixada a Cristina por seu marido, Néstor Kirchner, da crise energética e da inflação, que, segundo analistas independentes, já atinge a casa de 20% ao ano. "A taxa de inflação é galopante e está resultando em uma desaceleração no crescimento econômico", afirmou Abram. "Todas as crises na Argentina surgiram por causa da inflação ou do default, ou seja, do fracasso da política monetária ou da política fiscal, ou das duas juntas", destacou Krause.

Diante das incertezas que a crise agrícola provoca, há uma corrida pelo dólar. "A primeira coisa que o argentino faz quando vê que o governo não pode controlar a inflação ou não pode pagar sua dívida é comprar dólares", disse Krause.

www.estadao.com.br