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BOLETIM INFORMATIVO - OUTUBRO/2008

"TRÊS CERTEZAS SOBRE A CRISE FINANCEIRA:
Hora de gerar liquidez e não confusão"

BarrosDeMoura & Associados
Centro de Documentação
envia artigo de MAURÍCIO MOURA
de 5 de outubro de 2008
no DIÁRIO DE GUARULHOS


Com todas as ressalvas necessárias, preciso admitir que o ex-Ministro Delfim Netto tem absoluta razão quando diz que "o setor privado produz crescimento, já o setor público somente produz confusão". Todavia, o mundo massacrou a falta de regulação e pouca presença do Estado como fundamento do problema que desencadeou a crise financeira em Wall Street. Durante uma das mais tumultuadas semanas da vida do Congresso Americano o que mais se ouviu dos nobres deputados dos Estados Unidos foi que a culpa da crise "é do livre mercado". E talvez venha desse ponto o porto de maior incerteza sobre o futuro da economia mundial daqui para frente.

Nesse sentido, o futuro nos reserva algumas certezas. A primeira é que os US$ 700 bilhões de dólares aprovados em Washington não serão suficientes para cobrir as perdas financeiras produzidas pela crise do "subprime". O FMI, o Fundo Monetário Internacional, estima que o custo total é de pelo menos US$ 1.3 trilhão, ou seja, quase o dobro do valor requisitado pelo presidente George W.Bush. O mesmo estudo do Fundo, ao analisar 113 crises bancárias dos ultimos 30 anos, concluiu que crises oriundas desse motivo costumam custar em termos financeiros 3 vezes e durar 4 vezes mais. Exemplos disso foram as crises do Japão, da Russia, da Suécia e dos tigres asiáticos.

A segunda certeza se apresenta num futuro de pouca liquidez, o que significa na prática maior dificuldade para se obter financiamento refletido em taxas de juros maiores e prazos mais curtos. Menos dinheiro disponível, menos investimentos, menos comércio internacional, menos consumo e no limite menos renda e menos emprego. Não somente nos Estados Unidos, mas certamente na Europa e por tabela em países emergentes como o Brasil. Como exemplo real, aproximadamente 50% das vendas externas brasileiras (cerca de US$ 100 bilhoes) são financiadas por bancos estrangeiros que devido ao cenário atual já cortaram esse tipo de financiamento. Outros cortes virão e todos os setores sofrerão.

A terceira certeza é que novos bancos vão sumir do mapa. Com falta de liquidez, será preciso ter bastante capital para sobreviver, a era de bancos pequenos e bancos de investimentos que não possuem clientes com conta corrente acabou. Teremos uma onda de consolidação e quebra de bancos por todo o planeta. Esse movimento, inclusive, chegará ao Brasil e logo.

Por outro lado, a maior interrogação reside no comportamento do Estado daqui em diante (não somente os Estados Unidos), mas os governos e Bancos Centrais espalhados pelo mundo. O problema de Wall Street não foi concebido pela falta de regulação e muito menos pelo "livre mercado". O epicentro da crise, sem considerar a irresponsabilidade de se emprestar para potenciais maus pagadores, reside no pobre monitoramento dos riscos associados ao subprime. Do lado do governo americano que não monitorou os resultados financeiros desses bancos e das agências de classificação de risco (Moody's, Standard & Poors e Fitch) que classificavam todos os bancos quebrados como baixo risco. O leitor acha que se todos esses riscos fossem mais evidentes, o desejo de se fazer negócio com esses bancos seria maior ou menor ? Obviamente menor, se eu sei que a outra parte tem grandes riscos associados ao bom andamento do negócio, vou pensar dez mais vezes antes de fazer qualquer coisa. Nada como transparência.

A volatilidade da semana passada no mercado financeiro se deveu e muito ao atrapalhado processo de negociação entre a Casa Branca e o Congresso Americano. De uma proposta com 10 páginas se produziu um plano com 400. Não que a proposta de Bush e companhia fosse algum primor, muito pelo contrário, pediam um cheque em branco de US$ 700 bilhoes para salvar os banqueiros de Wall Street. Mas o processo conduzido pelos deputados, senadores e pelo próprio presidente Bush somente gerou ainda mais incertezas.

Nesse momento, o melhor que os Estados podem fazer é garantir liquidez aos bancos e empresas. Pregar mais regulação é estimular ainda mais a criatividade do mercado financeiro, criatividade tal que nos levou a essa crise. O momento é de se produzir transparência, conceito essencial não somente para o real "livre mercado" mas de uma sociedade justa, honesta e decente. Não é hora dos governos produzirem mais confusão.

MAURÍCIO MOURA, Economista, escreve aos domingos