Países devem crescer menos neste ano e as trocas comerciais serão
modestas em 2009
Superávit sobrevive às barreiras comerciais
SÔNIA SALGUEIRO

São Paulo
Apesar das barreiras comerciais impostas pelo governo argentino no ano passado — como a elevação das tarifas sobre produtos agrícolas exportados, a tentativa de elevar a Tarifa Externa Comum (TEC) para alguns itens importados, como máquinas e equipamentos, e a
adoção do licenciamento não-automático para 1.200 produtos, como artigos da linha branca, produtos têxteis e calçados — , a atribulada relação Brasil-Argentina encerrou 2008 com superávit favorável ao Brasil e, como em 2006 e 2007, ele ficou novamente na casa dos US$ 4
bilhões.
“Em virtude da crise internacional, dificilmente conseguiremos número parecido neste ano. Com certeza, a balança de 2009 será muito mais equilibrada”, diz Alberto Joaquin Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Argentino- Brasileira de São Paulo.Segundo o dirigente, as compras dos dois países serão mais modestas porque ambos crescerão a taxas menores. No caso argentino, o Produto Interno Bruto (PIB), que subiu 8,5% em 2007 e entre 6,5% e
7% no ano passado, deve fechar este exercício com uma expansão máxima de 1,5%, se confirmadas as estimativas dos principais institutos argentinos.
Diante desse quadro, Alzueta prevê que as exportações brasileiras à Argentina cairão cerca
de 23% neste ano. Já as importações do parceiro de Mercosul tenderão a cair na casa dos 18%. Os produtos mais afetados serão justamente os mais trocados entre os dois países, como automóveis, máquinas agrícolas, veículos de carga e autopeças, avalia. A diretoria da Agco Corporation, dona dos tratores e colheitadeiras das marcas Massey Ferguson, Valtra, Agco-Allis e Challenger, antevê um período de vacas magras na região neste ano.
“A economia
argentina sofre com a falta de liquidez e, para piorar, a rentabilidade do agricultor cairá devido
à queda de preço das commodities”, afirma Rasso von Reininghaus, vice-presidente na América do Sul da Agco Corporation. Ele estima que o mercado argentino movimentará em torno de 5 mil tratores neste ano, 40% abaixo da marca de 2008. Quanto às colheitadeiras,
devem ser absorvidas de 1.100 a 1.200 máquinas, 30% a 35% menos que no ano passado.
Reininghaus considera que medidas equivocadas do governo argentino, como a taxação das commodities agrícolas, prejudicaram bastante o agronegócio local. “Eles tiveram um desempenho abaixo do mercado, num momento em que a cotação dos produtos agrícolas
era positiva”, diz ele. As vendas de tratores e colheitadeiras até aumentaram cerca de 25% em 2008, mas o crescimento poderia ter sido maior, segundo o executivo.
A Argentina é o principal cliente da Agco brasileira. Doscerca de 15 mil tratores exportados
no ano passado, 24% seguiram para o mercado argentino. Metade das colheitadeiras vendidas
no exterior também tiveram o país vizinho como destino. O setor automotivo é a grande
vedete da pauta entre os dois parceiros. Segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ele respondeu sozinho por 32% das exportações brasileiras à Argentina em 2007 e pelo mesmo percentual das importações feitas do país vizinho.
“O setor
funciona de maneira muito integrada, porque, pelas regras do acordo automotivo do Mercosul produzir na Argentina é quase como produzir em Porto Alegre em relação a São Paulo”, afirma o professor Mauro Zilbovicius, do Departamento de Engenharia da Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. O segundo item mais exportado pelo Brasil são máquinas e equipamentos (13%), seguidos por materiais e produtos elétricos (12%). Não à toa, os produtos manufaturados responderam por 93% de nossas vendas ao mercado argentino
em 2007 e por 78% do que importamos de lá.
Na concepção de Mário Marconini, diretor de Negociações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), seguramente a corrente de comércio entre os dois países cairá neste ano por causa da crise. “Mas é difícil projetar de quanto será essa queda”, ressalta, acrescentando que a Argentina deve sofrer mais, devido à sua delicada situação econômica e política (déficit público, inflação alta, estatização dos fundos de previdência, etc.)
Desde 2004 a balança Brasil-Argentina é favorável ao País e o superávit a nosso favor é crescente ano a ano: era de R$ 1,82 bilhão em 2004, chegou a US$ 4,07 bilhão em
2007 e, no acumulado janeiro a novembro de 2008, atingia US$ 4,28 bilhões.
“Não fosse a crise internacional, o saldo do ano passado seria ainda maior”, diz o diretor da Fiesp.
Marconini acha que a desvalorização da moeda brasileira ajudou na construção desse superávit, mas entende que o saldo não foi obtido só à custa disso.
“Tem mais a ver com competitividade do que com câmbio”, avalia. Segundo ele, o Brasil é
mais competitivo porque fez a chamada “lição de casa”, isto é, está com as contas e a inflação
sob controle e, ao contrário do país vizinho, não vive às voltas com turbulências políticas.
ANTENOR BARROS LEAL Vice-presidente da Abitrigo
A inauguração do escritório comercial da Continental Pneus na Argentina, em novembro passado,
aconteceu justamente quando a crise internacional ganhava fôlego nos países em desenvolvimento.
“Quando a decisão foi tomada, em fevereiro de 2008, o cenário era mais favorável”, justifica Renato Serzano, diretor superintendente e responsável pelas operações comerciais da empresa na América Latina. Não existe, porém, motivo para arrependimento. “Não dá para ter uma distribuição eficiente na
Argentina, nosso segundo mercado na América do Sul, sem uma estrutura própria”, avalia o superintendente. Ele conta que por dez anos a empresa atuou no País por intermédio de um representante local. “Quando o contrato chegou ao fim, podíamos renová-lo ou partir para a operação
própria. Optamos pela segunda alternativa.”
Localizado em Buenos Aires, o escritório conta com seis funcionários, que inicialmente estão focando o mercado de reposição. A maioria dos pneus comercializados no país vizinho são produzidos na fábrica que o grupo mantém em Camaçari (BA). “Só virão de outras plantas itens que não são feitos no Brasil”, esclarece Serzano. Otimista, ele acha que a retração econômica não atrapalhará os planos da Continental. “Prevemosb vender 20% a 25% mais pneus na Argentina neste ano.” S.S.
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