Brasil tenta recuperar fluxo comercial com a Argentina
SÃO PAULO - A visita da presidente da Argentina, Cristina Kirchner ao Brasil, que
acontece amanhã em São Paulo, pode ser o primeiro sinal de tentativa de acordo entre
os dois países, para a recuperação do fluxo comercial, que vem em trajetória de
queda. Analistas ouvidos pelo DCI disseram que o crescimento da balança comercial
e o fluxo verificados no ano passado não serão repetidos pelos próximos dois anos.
A balança comercial continuará superavitária para o Brasil, e o fluxo comercial
não deve passar dos US$ 18 bilhões, após os US$ 30 bilhões registrados no ano passado.
O Brasil fechou o mês de fevereiro com um aumento de 7,79% nas exportações para
a Argentina e 9,52% nas importações em relação ao mês anterior. Estes dados possibilitaram
o crescimento da balança comercial entre os países que desde novembro do ano passado
sofre com fortes quedas na corrente comercial. De acordo com dados divulgados pelo
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior até novembro de 2008
os valores de exportação passavam com folga a casa do bilhão exportado, este mês
a balança fechou com somente US$ 693 milhões, se comparado com fevereiro do ano
anterior houve uma queda de 49,52%.
Um dos principais motivos apontados pelo gestor de negócios da Câmara Brasil-Argentina
do Rio Grande do Sul, Jorge Flores, é a retração do comércio mundial e não somente
do comércio entre os países vizinhos. No entanto, o desequilíbrio a favor do Brasil
será constante, uma vez que a Argentina ainda não conseguiu recuperar sua economia,
antes mesmo desta crise financeira. "A Argentina precisa criar um pensamento de
longo prazo, pois só assim conseguirá se recuperar tão rapidamente quanto é previsto",
explica Flores.
O valor total exportado para a Argentina sofreu uma queda de 47,42% quando comparado
com o mesmo período de 2008. No entanto, se compararmos com o mês anterior, houve
um aumento de 7,79%. Segundo o professor de economia da Trevisan Escola de Negócios,
Alcides Leite, o motivo apresentado foi à quebra na produção de alimentos por motivos
naturais, sofridos pela Argentina. "O nosso vizinho sofreu uma forte seca, o que
prejudicou sua produção no trimestre passado e no primeiro trimestre deste ano,
e fez com que fosse importado um número superior de produtos."
Contudo, Flores adicionou o problema de linhas de crédito para exportação enfrentado
pelo Brasil em janeiro, o que impediu que propostas de negócios e contratos comerciais
fossem efetivamente concluídos, e que após a intervenção governamental no início
de fevereiro estas puderam ser concluídas, o que ocasionou a elevação neste mês,
comparada com janeiro deste ano.
A balança comercial brasileira registrou aumento na exportação de produtos básicos
e produtos manufaturados na comparação com janeiro deste ano de 129,49% e 5,29%
respectivamente, enquanto os produtos semimanufaturados sofreram uma queda de 4,66%
na mesma comparação. Ao analisar o mesmo mês do ano anterior e este mês, pode-se
perceber quedas de 50,68% na exportação dos produtos básicos, 71,47% nos produtos
semimanufaturados e 46,33% nos produtos manufaturados.
"A questão é que o consumo da Argentina diminuiu, tendo sua primeira queda devido
o efeito psicológico da crise mundial seguido pela escassez de crédito. Hoje , podemos
perceber a retração para haver um prejuízo e uma desestabilização menores na economia",
argumenta Flores.
Mercosul
De acordo com o diretor de Relações Internacionais econômicas da Associação nacional
dos executivos de finanças, administração e contabilidade (Anefac), Roberto Vertamatti,
o Mercosul foi criado com uma concepção corretamente aplicada, mas na prática não
é possível alcançar um mercado comum. Ele explica que a legislação caminha para
esse sentido, no entanto desde a crise interna Argentina este processo anda lento.
"Deveria haver um diálogo maior a respeito do problema e com isso, a corrente comercial
seria elevada."
Fora isto, Flores acrescenta a falta de proteção e comércio do bloco econômico.
"Na Argentina quando as empresas querem exportar seus produtos existem taxas altas
que devem ser pagas, como por exemplo, se quiserem exportar arroz ou trigo devem
pagar 5% ou 13% respectivamente só para o produto sair do país."
"Os países deveriam abrir o comércio totalmente, a princípio isso iria prejudicar
algumas empresas nacionais, no entanto com o tempo seria a melhor posição tomada
no contexto completo", acrescenta Vertammatti.
Um dos assuntos que deve ser abordado será em torno da dependência brasileira do
trigo argentino, e a decisão imediata tomada pelo governo argentino de elevar o
valor da tonelada de US$ 240 para US$ 300. Este aumento será muito sentido no Brasil,
que pode comprar de outros países como represália a medida tomada por Kirchner.
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