Presidente Lula cobra maior agilidade com a Argentina
SÃO PAULO - O presidente Lula cobrou, ao lado da presidente da Argentina, Cristina
Kirchner, durante evento na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
(Fiesp), na capital paulista, a aceleração do acordo de cooperação entre o Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco de la Nación e o
Banco de Inversión y Comercio Exterior (Bice), que tem como objetivo aumentar o
ritmo de implementação de projetos entre os dois países, com atenção especial aos
relacionados à infraestrutura.
"Precisamos acelerar a vigência do convênio entre os bancos. Esse acordo permitirá
que o Brasil ultrapasse os US$ 3,6 bilhões de crédito aberto para empreendimentos
na Argentina", afirmou.
O acordo, assinado em setembro de 2008, prevê que os bancos oficiais façam rodadas
de negócios para identificar projetos estratégicos e economicamente viáveis para
acelerar a integração entre os países e o desenvolvimento econômico. "Vamos trabalhar
para que no dia 23 de abril, quando estivermos na Argentina, a gente possa firmar
esse acordo, que por enquanto é só um protocolo, e normalmente em protocolo não
se bota dinheiro. Precisamos colocar dinheiro porque é o que vai fazer as coisas
funcionarem rápido", declarou Lula.
Lula disse esperar que a reunião entre os ministros da área econômica do Mercosul,
resulte na criação do Banco do Sul. "Finalmente, parece que na segunda-feira os
nossos ministros da economia vão se reunir e nós vamos ter o Banco do Sul funcionando
aqui na nossa querida América do Sul", declarou.
Ao se referir à reunião do G-20, que acontece no dia 4 de abril, em Londres, ele
ressaltou que Brasil e Argentina atuarão de forma conjunta e terão autoridade para
expor seus pontos de vistas sobre as principais medidas que devem ser adotadas pelo
grupo.
"Estou convencido de que eu e Cristina e alguns companheiros, ao chegarmos em Londres
para o G-20, será a primeira vez na história em que países em desenvolvimento vão
chegar numa reunião com mais autoridade moral que os países ricos", afirmou.
Para o presidente, está cada vez mais claro que o principal desafio que os países
em desenvolvimento devem enfrentar é a falta de recursos para financiamento, tanto
para empresas como também para consumidores. "Sem crédito, as empresas não investem
e a economia não roda", destacou. "O G-8 mostrou-se aquém das necessidades atuais.
O G-20 é parte da solução. "Fizemos exatamente o contrário do descrito por aquela
cartilha. Nós tivemos rigorosa ação regulatória do Estado sobre o sistema financeiro
e de seguros. E contamos com bancos públicos sólidos, reduzindo ainda nossa vulnerabilidade
externa. E mais importante, nossas políticas de inclusão social e distribuição de
renda tiraram milhões de pessoas da pobreza", acrescentou.
O presidente defendeu que os países emergentes não injetem recursos nos principais
organismos multilaterais, como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial
(Bird) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) a não ser que seja para que
eles possam auxiliar os emergentes, cujas economias estão ameaçadas de colapso,
mas sem impor condições para a administração de suas políticas econômicas. Na avaliação
dele, essas instituições não foram criadas com o objetivo de ajudar os países ricos
durante uma crise, e receberam recursos suficientes apenas para auxiliar países
emergentes.
"Não faz sentido aumentarmos nossa contribuição para essas instituições enquanto
os países ricos, responsáveis pela atual crise, continuarem a dar as cartas", acrescentou.
A presidente Kirchner defendeu as medidas comerciais que adotou para proteger setores
industriais do país, e pediu ao Brasil para compreender os problemas estruturais
que as motivaram. Ela disse que as medidas se justificam pelo menor desenvolvimento
da economia argentina, pelo enorme déficit do país no comércio bilateral e pela
necessidade de reestruturar sua indústria.
"Com economias diferentes é natural que sejam adotadas medidas para não agravar
uma situação que é estrutural", afirmou.
Este ano, a Argentina decidiu impor licenças não automáticas de importação para
200 produtos, o que provocou queixas brasileiras e até declarações de altos funcionários
defendendo um processo perante a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Cristina disse ter vindo para "pedir a compreensão e a cooperação do Brasil" em
torno dos problemas argentinos que geraram tanto o déficit comercial do país como
o enfraquecimento de alguns setores industriais.
"Não há uma contradição [em que os dois países adotem medidas protecionistas e rejeitem
o protecionismo]. Há medidas protecionistas de uma parte e de outra. Umas são mais
visíveis que outras", afirmou.
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