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BOLETIM INFORMATIVO - SETEMBRO/2009

Especialistas propõem nova estrutura para salvar Mercosul

SÃO PAULO - Depois do anúncio de que o governo argentino não irá atender ao pedido do Brasil de que sejam retiradas as barreiras aos produtos brasileiros, e com as dificuldades enfrentadas pelo governo para conseguir aprovação dos países do Mercosul a acordos comerciais com outras nações do mundo, alguns especialistas apontaram que a extinção do Mercosul como bloco econômico -e a formação de um novo bloco, que reúna todos os países da América do sul e que possua novas regras para os seus membros- seja a solução para os problemas enfrentados pelo Brasil.

Para Renato Baumann, diretor da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o custo social e econômico de acabar com o Mercosul hoje não é pequeno: é muito grande, mesmo para o Brasil.

Ele afirma que é necessário fazer uma correção de alguma maneira, seja com a alteração de seu nome e um novo começo, seja mudando os países integrantes.

"Temos de encontrar um meio para solucionar os problemas ocasionados pela participação do Brasil no Mercosul. O principal deles é o estrutural. Acabar com o bloco está fora de cogitação, mas mudança nos meios econômicos é uma solução viável, principalmente com os interesses consolidados. O Mercosul, para o Brasil, corresponde a menos de 10% do PIB [Produto Interno Bruto], então não faz sentido condicionar os outros 90% à escolha da minoria, não podemos parar porque a minoria não quer ou dificulta. Se o Brasil não tomar uma providência, se não quiser encontrar um meio, por ser o sócio majoritário, não mudará em nada o que é hoje e continuará a enfrentar problemas", argumentou o diretor da Cepal, durante entrevista exclusiva depois de debate na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

De acordo com Márcio Holland, professor e economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), o Mercosul tem três pontos básicos de discussão: político, financeiro e econômico, e de relações internacionais. Na sua opinião, os presidentes de bancos centrais e autoridades monetárias poderiam se reunir e fazer acordos para uma moeda comum no bloco, para trazer uma estabilidade e força para a região sem necessariamente trazer um acordo de tarifas alfandegárias ou cambiais.

"Eu tenho dúvidas quanto às relações do Mercosul no que é definido como tratado de livre-comércio. Hoje cada país segue em uma direção comercial sua, e se adotarmos o sistema de moeda comum, todos iriam para uma direção mais equilibrada e no mesmo sentido praticamente, o que facilitaria as negociações comerciais de cada país e também as do bloco", explicou o acadêmico.

Segundo o embaixador e diretor da Faculdade de Economia da FAAP, Rubens Ricupero, a União Europeia demorou a convencer todos os países a adotarem uma moeda única, a formarem um grupo único e unido, mas hoje são uma potência perante o resto do mundo. "Levará tempo, mas o Brasil e os demais países da América do Sul terão de se unir, terão de demarcar território e ponderar, sob o aspecto político e econômico, quais são as economias que terão maior lucro, que poderão apitar mais, ou menos; não adianta querer uma coisa se os números mostram que não se pode fazê-la", declarou Ricupero, salientando que "será um processo difícil, porém ele acarretará um futuro benéfico para todos os países nele envolvidos, inclusive o menor deles, a menor economia." "Na União Europeia temos a individualidade de cada país, mesmo com uma única moeda. Não podemos perder tempo mais uma vez, a Ásia está unificando sua moeda com a junção de Coréia do Norte, Coréia do sul, China e Japão", ressaltou o professor da FGV.

"Há um dilema", frisa Baumann. "O Brasil não sabe até hoje por que existe o Mercosul. Todos os outros países integrantes [Argentina, Uruguai e Paraguai] sabem o porque, menos o Brasil."

Baumann ainda relata que o único ponto benéfico no momento para o Brasil são as pequenas e médias empresas brasileiras, pois elas exportam para o vizinho primeiramente, depois investem em tecnologia, aprendem com os erros e com isso iniciam sua expansão para o restante do mundo de uma forma mais rápida e fácil.

Holland concluiu ao dizer que o Brasil é mais importante para a Argentina do que a Argentina para o Brasil: "Então se eles não aceitarem as propostas feitas por nós, eles é que vão perder espaço no comércio brasileiro. Valem mais as relações multilaterais do que as relações bilaterais".