CARLOS GERALDO LANGONI

A SURPRESA DO PIB

O PIB do 2º trimestre apresentou variação positiva na margem, afastando o risco de uma recessão técnica. Outra boa notícia foi a queda do desemprego para 11,8% em julho, ainda que com peso desproporcional da mão-de-obra informal.

O resultado ainda é modesto (0,4%), mas não deixa de impressionar por ter ocorrido em ambiente de elevada incerteza.

Reformas:

A tensão política era aguda, alimentada pelos debates no Congresso em torno da Previdência.

Não estava claro se a reforma seria de fato aprovada. Seus contornos ainda estavam indefinidos, assim como sua potência fiscal.

Não deixa, portanto, de ser paradoxal verificar que, mesmo surfando nessa onda de incertezas, a economia já ensaiasse reação moderada, liderada na oferta pela indústria e formação bruta de capital, na demanda.

Chama também a atenção a forte expansão do investimento privado (3,2%), mesmo com margens elevadas de capacidade ociosa. Em contraste, no passado, o consumo era a variável chave alavancado pelo crédito subsidiado dos bancos públicos.

Inflação:

O patamar historicamente baixo da inflação e a tendência de queda dos juros reais podem ter contribuído para o avanço observado na indústria, com destaque para a construção e imobiliário e, em menor escala, nos serviços – ambos intensivos em mão-de-obra.

A PNAD de julho confirma a estabilidade da massa salarial em termos reais, ajudando a sustentar a expansão gradual do consumo privado, mesmo sem estímulos artificiais.

Por outro lado, a modernização dos marcos regulatórios na infraestrutura e a queda na percepção de risco-país ajudam a explicar a reação dos investimentos privados.

De qualquer forma, a taxa de investimento (15,9% em relação ao PIB) ainda é baixa para padrões internacionais (24% no Chile). Há, portanto, espaço para ser ocupado com impacto direto sobre o patamar de crescimento de longo prazo.

Cenários:

O desempenho no 2º semestre deve ser mais favorável. Com a queda do nível de incerteza, acompanhando o progresso observado na agenda de reformas, espera-se aceleração no ritmo de expansão.

Há, também, a contribuição do programa de privatizações e o efeito sobre as expectativas da abertura da economia.

A reforma tributária tem viés pró-crescimento pela esperada redução dos impostos sobre o lucro retido, além do provável corte nos encargos trabalhistas.

Ajuste:

A solidez das contas externas é outro importante trunfo. Há notável contraste entre a situação confortável brasileira e o drama argentino, que obriga o país a renegociar sua dívida com o FMI.

Apesar da piora no saldo comercial em razão da desaceleração da economia mundial, o déficit em conta-corrente permanece baixo (1,31% do PIB em julho).

É financiado facilmente por capitais de longo prazo, que já representam 5,09% do PIB.

Essa abundante liquidez externa é suficiente para evitar o overshooting cambial e minimizar algum desaquecimento na economia mundial.

Será, entretanto, incapaz de evitar as consequências de uma descontinuidade recessiva provocada pelo eventual aprofundamento da guerra comercial.

Em resumo, o PIB cresceu modestamente no 2º trimestre, liderado pela indústria e investimentos privados.

O resultado impressiona, porque ocorreu em ambiente contaminado pelo risco político. A expectativa é de ritmo mais forte neste nos próximos meses, acompanhando a queda nos índices de incerteza, à medida que a agenda de reformas for implementada.

O desafio passa a ser a economia mundial ameaçada pela guerra comercial e tensões geopolíticas.

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