CARLOS GERALDO LANGONI

DESAQUECIMENTO GLOBAL

A OCDE aponta para desaceleração gradual da economia mundial que deve crescer 3,2% este ano.

A principal causa é a escalada protecionista: o comércio internacional perde fôlego e deve avançar em ritmo lento, a metade do PIB mundial.

Sincronismo:

A desaceleração é generalizada, mas o impacto parece ser mais severo na China, o principal alvo da guerra comercial.

Suas importações neste 1º trimestre permaneceram constantes - sinal amarelo para o resto do mundo.

As projeções para o Brasil (1,4%) confirmam a relativa estagnação em 2019, provocada pela onda de incerteza. Mantêm, entretanto, a aposta de recuperação gradual em 2020.

Cenários:

Esse cenário básico de “soft landing” pode se transformar em descontinuidade recessiva se houver acirramento nas retaliações bilaterais.

Essa possibilidade, ainda que pequena, tornaria ainda mais desafiante a decolagem da economia brasileira.

Apesar da solidez das contas externas, a absorção do impacto da reversão dos fluxos de capitais teria efeito contracionista na balança comercial.

O superávit tenderia a desaparecer com a perda de dinamismo das exportações. Essa perda seria alavancada pela queda esperada nas commodities.

O câmbio sustentaria viés de desvalorização, pressionando as expectativas inflacionárias e diminuindo as margens de manobra do BC para eventuais cortes nos juros.

Ajuste:

Este ambiente externo menos favorável aumenta a urgência da agenda de reformas no Congresso. O ideal é ter a Previdência aprovada até julho.

Dessa forma, a queda da componente política do risco-país reduziria o efeito da alta nas incertezas da economia global.

De qualquer modo, o salto esperado no PIB potencial para a faixa de 3 / 4% poderá ser adiado ou amortecido.

O ajuste fiscal de curto prazo - que depende criticamente da evolução das receitas - será ainda mais desafiador.

Aumenta a relevância e urgência de receitas extraordinárias - como repasses do BNDES, concessões e privatizações.

Heterodoxia:

O Governo terá que resistir à perigosa tentação da heterodoxia. O exemplo argentino é dramático: ensaiou-se um processo de liberalização sem a ancoragem fiscal.

O resultado foi nova crise de balanço de pagamentos, com a combinação fatal de recessão e inflação que pode custar a derrota de Macri nas próximas eleições.

No caso brasileiro, é fundamental convencer a opinião pública e o Congresso em particular, que a fragilidade da economia mundial reforça a urgência e prioridade da agenda de mudanças estruturais.

Qualquer desvio populista nos colocaria na rota da recaída recessiva, aprofundando a já grave crise social com desemprego e aumento de desigualdade.

Em resumo, a OCDE alerta para riscos crescentes de desaceleração do PIB global. A crise é “man made”: a irracional guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

Para o Brasil, cujo crescimento já é subpotencial, a mensagem é clara: não há outra alternativa a não ser implementar rapidamente as mudanças na Previdência e nos impostos, construindo sólido e consistente ajuste fiscal.

Nesse sentido, ser membro pleno da OCDE representaria importante upgrade institucional.

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