O Banco Central manteve a SELIC estável em 6,5%, apesar da piora no balanço de riscos. O foco continua sendo a inflação, que mantém trajetória benigna.

Por CARLOS GERALDO LANGONI

IPCA

Tanto os índices correntes como as expectativas futuras flutuam na faixa de 4%, abaixo, portanto, do centro da meta.

Esse comportamento favorável reflete a lenta expansão da demanda doméstica, acompanhando a fragilidade do mercado de trabalho – estagnação do salário real e elevado nível de desocupação, apesar do avanço no emprego formal em agosto (cerca de 100 mil vagas).

A economia opera com margens generosas de ociosidade, o que ajuda a entender porque as pressões cambiais ainda não contaminaram os preços ao consumidor. Até a inflação dos serviços, normalmente mais resistente, flutua abaixo de 3%.

Ou seja, o BC, até o momento, tem grau de liberdade para não antecipar o ciclo de alta dos juros básicos, apesar das tensões externas e da vulnerabilidade fiscal.

Guerra

A intensificação da guerra comercial entre Estados Unidos e China ameaça o crescimento sincronizado da economia mundial.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) estima que a escalada do protecionismo poderá produzir queda da ordem de 17,5% no volume do comércio mundial ao longo dos próximos anos.

A China seria atingida de forma desproporcional, com o PIB desacelerando para um patamar inferior a 6%.

Mesmo esse soft landing impactaria negativamente o preço das commodities, dificultando as exportações brasileiras.

O cenário poderá se complicar com nova etapa do processo de normalização monetária pelo Fed: a elevação dos juros nos Estados Unidos penaliza os fluxos de capitais para os emergentes.

É nesse ambiente internacional hostil que o novo governo terá de implementar, rapidamente, um amplo e duradouro ajuste fiscal.

Eleições

As pesquisas do IBOPE e Datafolha mantiveram o estresse nos mercados financeiros ao confirmar a polarização entre Bolsonaro e Haddad.

Chama também a atenção à queda dos candidatos do centro liberal como Alckmin e Marina.

Questão relevante é se, em face da grave crise econômica, o PT abandonará as versões radicais de seu programa populista com uma nova versão da Carta aos Brasileiros de Lula em 2002.

Não será fácil convencer o mercado sobre a viabilidade dessa guinada macro: para evitar a disparada no risco-país e reverter o viés de desvalorização é preciso um Ministro da Fazenda com perfil ortodoxo (Samuel Pessoa, Marcos Lisboa) além de assegurar a independência do Banco Central – ambas hipóteses parecem remotas.

Em resumo, a SELIC estável e inflação baixa (o IPCA-15 de setembro apresentou variação praticamente nula) são alguns dos poucos pontos positivos da área econômica nessa desafiante transição política.

A continuidade de juros historicamente baixos depende do resultado das eleições e, principalmente, da rápida implementação, pelo novo governo, da agenda de reformas com foco no ajuste fiscal.

O ambiente externo é uma grave ameaça: sua rápida deterioração poderá obrigar o BC a elevar as taxas básicas, ainda esse ano, dificultando ainda mais a consolidação do processo de retomada.

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