Brasileiros aderiram ao “home office” , mas querem suas vidas pré-pandemia, aponta pesquisa exclusiva

Valor Econômico

Pesquisa exclusiva para o “Valor” revela que durante o isolamento, brasileiros aderiram ao modelo de “home office”, mas, no geral, querem mesmo é retomar suas vidas como elas eram antes da pandemia de covid-19

Por Carlos Rydlewski — Para o Valor, de São Paulo

31/07/2020 05h02

Passada a tempestade pandêmica, em um cenário ideal onde uma vacina eficaz possa aniquilar a covid-19, quais mudanças de hábitos adotadas durante o isolamento devem ser mantidas e quais delas serão deixadas para trás? Ou seja, depois que o mundo virou de ponta-cabeça, o que deve voltar ao lugar, quando concluído o ciclo mais tenebroso da doença? Pois estabelecer os limites dessa fronteira entre as variações transitórias e as perenes, em oito áreas da atividade humana, foi o objetivo da nova pesquisa de opinião pública realizada pelo Instituto Travessia, de São Paulo, com exclusividade para o Valor.

A enquete, que examina o que de antigo restará no “novo normal”, foi realizada entre os dias 23 e 24 de julho em cinco grandes cidades do Brasil: São Paulo, Rio, Porto Alegre, Recife e Salvador. As 1.010 entrevistas revelam, sobretudo, adesão surpreendente ao “home office”. Indicam ainda forte disposição das pessoas em alterar práticas de consumo e transporte, caso o trabalho remoto se imponha. Por fim, a sondagem identifica alterações na forma com que brasileiros pretendem consumir entretenimento, cultura e a maneira como lidam com a educação.

O “home office” surge como pivô para eventuais metamorfoses. Configura o que especialistas definem como “puxador de tendências”. “Dependendo do nível em que for adotado, pode provocar uma série de outras alterações, atingindo setores como a mobilidade, o trânsito, o comércio e assim sucessivamente”, diz Renato Dorgan Filho, sócio do Instituto Travessia. “Na prática, ele desencadeia mudanças em cascata.”

Entre os entrevistados, 45% disseram ter trabalhado em casa durante a pandemia. À primeira vista, o percentual soa um tanto minguado. Mas não é. Afinal, ele representa um segmento limitado da sociedade, composto, em geral, por trabalhadores com carteira assinada, grupos que realizam atividades em escritórios ou profissionais liberais. Dessa turma, 67% definiram como “boa” a experiência do trabalho remoto, ante 18% que a classificaram como “ruim” e 15%, como “indiferente”.

No mais, 58% disseram que gostariam de continuar trabalhando em casa no póspandemia, sendo que 56% adotariam a prática em período integral. Para a maioria desse grupo (49%), a produtividade do trabalho não sofreu alteração expressiva no ambiente doméstico. Ainda assim, 20% apontaram que ela diminuiu e 31%, que aumentou. “Na avaliação dos trabalhadores, na média, a eficiência foi mantida”, deixaram de perder no trânsito, no trajeto para o escritório. Com o trabalho remoto, ele, literalmente, evapora.”

A maior parte dos adeptos do “home office” é formada por homens, notadamente os que ocupam as faixas mais altas de renda, acima de dez salários mínimos mensais - possivelmente porque contam com condições mais adequadas de trabalho em suas residências. O segmento com menor renda, que recebe até dois mínimos por mês, foi o que se mostrou mais arredio à prática. “Em pesquisas qualitativas, percebemos que, quando estão em casa, mesmo trabalhando, as pessoas têm medo de perder seus empregos”, diz Dorgan Filho. “E essa sensação é mais forte entre os mais pobres.” Já a faixa etária mais entusiasmada com o trabalho remoto concentrou-se no arco que vai de 25 a 44 anos de idade.

Abraçar esse tipo de mudança, para especialistas, não é trivial. “A maior parte das pessoas está praticando uma espécie de trabalho confinado, provocado pelo isolamento social, muitas vezes em condições ruins de infraestrutura”, diz Daniel Cherman, diretor-geral da Tishman Speyer, incorporadora e gestora de imóveis com atividade em oito países. “É muito diferente do que se pode chamar de verdadeiro ‘home office’, que pressupõe ergometria, boa conectividade e a utilização de equipamentos adequados.”

A pesquisa indica que tipo de impacto a ascensão do “home office” teria na estrutura de transportes nos centros urbanos. O levantamento mostra que, nesse contexto, 56% dos entrevistados usariam com menor frequência os sistemas públicos de locomoção. Assim, 30% deixariam de lado ônibus e 26%, metrô. “Não é pouca gente”, diz Dorgan Filho. “Somados, os dois grupos representam mais da metade da amostra.”

Tomas Alvim, coordenador do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper, em SãoPaulo, diz acreditar que indicadores como esses deveriam operar como alavancas para apressar mudanças nas metrópoles. “A pandemia criou contexto favorável, uma espécie de momento mágico, para a adoção de agenda ousada de inovações nos centros urbanos”, afirma Alvim. “Houve, por exemplo, redução nunca observada no tráfego de automóveis, o que favoreceu a construção de ciclovias, além do alargamento de calçadas para pedestres. Locais como Paris, Bogotá e Medelín aproveitaram a ocasião para promover essas mudanças.

E se os ônibus e o metrô fossem deixados de lado, que meios de transporte as pessoas adotariam? Nesse caso, 31% disseram que recorreriam a aplicativos como Uber e 99. Outros 22% afirmaram que se manteriam agarrados aos carros particulares. A bicicleta surgiu como uma alternativa para 5% dos entrevistados. O percentual dos que gostariam de se manter sobre duas rodas, à primeira vista, parece pequeno. Trata-se, no entanto, de uma parcela robusta em se tratando de áreas altamente populosas do país.

A sondagem questionou ainda se moradores desses centros urbanos estariam dispostos a abrir mão dos veículos particulares, em cenário de adoção do trabalhoremoto em larga escala. A maior parte, 53%, disse que não, sendo que os mais ricos (com renda mensal igual ou superior a dez salários mínimos) e os mais velhos (acima ocorre que 47% afirmaram o contrário. Disseram que, sim, abririam mão de um veículo particular. Com isso, há empate técnico nesse quesito, pois a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para cima e para baixo. Metade dos entrevistados aceitaria não ter carro. O levantamento confirma pesquisas anteriores segundo às quais as mulheres são menos apegadas aos automóveis, assim como os mais jovens. As pessoas com renda mais baixa (até cinco salários mensais), até por uma questão de poder aquisitivo, também compõem esse bloco.

A pesquisa examinou ainda variações dos hábitos de compra. No total, 55% disseram ter utilizado a internet para adquirir produtos durante a pandemia. Não é uma tendência ampla e inexorável. Mesmo porque 54% da amostra não pretendem usar com maior frequência esse canal de compras vencida a covid-19. Além do mais, grupo, os “invisíveis ao mundo digital”, ocupa a faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos. Dos que se mostram dispostos a aumentar o volume de aquisições pela rede de computadores, a maioria ganha mais de dez mínimos por mês.

Uma parcela de 14% afirmou ter enfrentado dificuldades ao comprar pela internet. “Em termos percentuais, pode não parecer muita gente”, diz Dorgan Filho. “Mas isso representa mais de um cliente em cada dez. Isso não pode ser considerado sinônimo de eficiência.” Nesse caso, 94%, a quase totalidade das queixas, estavam relacionados a problemas como o recebimento das mercadorias. Por enquanto, indicam as respostas do questionário, o comércio local também não representa opção atrativa para os consumidores, embora os técnicos acreditem que tal situação possa mudar em um quadro de adoção do “home office” em larga escala. Na pesquisa, 64% disseram que, no pós-covid, pretendem recorrer ao comércio de bairro com a mesma regularidade do período anterior à pandemia. Para 22%, no entanto, a perspectiva de mudança a favor dos pequenos estabelecimentos mais próximos de suas moradias é real.

A enquete sugere que a relação entre os entrevistados e os shoppings pode esfriar, mesmo se a covid for a nocaute. Nesse caso, 44% das pessoas ouvidas disseram que não deixarão de frequentar esse tipo de polo de consumo, mas 36% querem fazê-lo com menor recorrência. Um grupo de 15%, no entanto, afirma que não irá mais a centros comerciais dessa natureza.

De acordo com o levantamento, existe entre os moradores de grandes centros urbanos tendência para abrir mão de empregados domésticos. Na sondagem, 32% afirmaram que continuarão a usar esse tipo de mão de obra, mas 15% querem seguir o caminho contrário. Nesse subgrupo, 10% não pretendem mais recorrer a esses serviços e 5% desejam diminuí-lo.

Entre os que pensam em abdicar dos trabalhadores domésticos, a maior parcela é formada por pessoas que recebem entre cinco e dez mínimos por mês. Ocupam ponto intermediário na escala de renda nacional. A maior parte dos que querem reduzir o uso desses profissionais, por sua vez, recebe mais de dez mínimos. Nesse caso, é a turma do topo da pirâmide. “Isso mostra que a crise econômica atingiu todos os segmentos”, diz Dorgan Filho. “Em análises qualitativas, quando conversamos com pequenos grupos de pessoas, percebemos isso com clareza. Está ocorrendo no país migração entre as classes sociais. E é descendente. Quem está na ‘classe B’ já não consegue atingir a ‘A’. Fica, na verdade, cada vez mais próximo da ‘C’.”

Um extenso conjunto de questões da pesquisa mapeou ainda eventuais mudanças de hábitos em relação ao lazer e à cultura. A análise confirmou que, durante a pandemia, os canais de “streaming”, forrados de séries e filmes, fornecidos por serviços como Netflix, Amazon e GloboPlay, ocuparam o topo da lista de sucessos.Eles contaram com a preferência de 30% dos entrevistados. A seguir, vieram as redes sociais e os aplicativos de mensagens. Nesse caso, o WhatsApp foi a escolha número um de 26% das pessoas ouvidas, seguido pelo Instagram e pelo Facebook, ambos com participação de 21% cada um.

A nota curiosa desse tópico é a presença do hábito de cozinhar, em terceiro lugar entre as opções de entretenimento, com 12% das escolhas. A distração entre o forno e o fogão superou a prática de assistir à TV aberta (com 11%, a maioria entre os mais pobres) e à TV fechada (7%, com maior porção entre os mais ricos). Isso além da leitura de livros (que atraiu 7% dos entrevistados). “Não é incomum vermos as pessoas trocando receitas, como faziam nossas avós”, diz Dorgan Filho. “A diferença é que, hoje, elas fazem isso pela internet.”

Em outra frente de perguntas, a enquete sondou o tamanho do apetite para ir a cinemas, teatros, shows, eventos esportivos, academias e comer fora de casa em contexto pós-covid. “A maioria quer retomar o mesmo nível de frequência observado antes da doença se propagar pelo mundo”, diz Dorgan Filho. Ainda assim, é possível notar pequena tendência de alta em um desses itens e de queda nos demais.

Entre os pesquisados, 63% disseram que querem manter a prática do lazer em casa na mesma proporção pré-pandêmica. Outros 20% manifestaram interesse em ampliá-la e 15%, em reduzi-la. Nesse caso, há uma possibilidade de alta (dada pela diferença entre os 20% positivos e os 15% negativos). Em relação aos exercícios em academias, 29% pretendem mantê-los no mesmo patamar pré-covid, sendo que 15% desejam incrementá-los e 14%, diminuí-los. Ou seja, aqui o quadro é de estabilidade. Destaque-se, contudo, que 36% dos entrevistados afirmaram não frequentar estabelecimentos desse tipo.

A lógica do sinal entre positivo ou estável não se aplica a todas as outras áreas analisadas. Considere, por exemplo, o caso dos cinemas. Segundo a pesquisa, no pós-covid, parcela de 35% dos entrevistados pretende frequentá-los com a mesma assiduidade do que antes da pandemia. Já 24% querem reduzir essa opção de lazer, sendo que apenas 10% gostariam de ampliá-la. Além do mais, 5% são categóricos em dizer que vão cortar esse tipo de programa - e há 26% que já haviam feito isso antes da crise sanitária.

Diante dessa situação, especialistas e empresários divergem. André Sturm, diretor do Petra Belas Artes, em São Paulo, diz que diversas salas de exibição não vão sobreviver ao período de isolamento, quando permaneceram fechadas. “É a principal consequência da pandemia”, afirma. “No nosso caso, abrimos um drive-in e por sorte estávamos lançando serviço de ‘streaming’ durante a covid. Com isso, estamos mantendo a dificuldade em nível tolerável. Mas precisamos reabrir as salas em agosto para que não tenhamos maiores problemas.” As sessões no Petra Belas Artes devem ser retomadas no dia 6.

Ricardo Difini Leite, presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas, é mais otimista. “Pesquisas já realizadas constataram que o cinema é uma das primeiras atividades que as pessoas desejam retomar, principalmente os mais jovens”, diz. “Acredito que o número de salas que irá encerrar suas atividades não será grande. Os exibidores de pequeno porte são resilientes. Geralmente, são famílias que administram seus negócios e, em muitos casos, possuem outras atividades para agregar renda. Não acredito em um ‘novo normal’ no nosso setor.”

Na enquete, a maioria dos entrevistados, 38% da amostra, já não frequentava teatros antes da covid. Após a pandemia, 32% indicam que querem voltar a assistir a peças, mas 17% se mostram propensos a diminuir a assiduidade e 8% estão dispostos a ampliá-la. Na essência, esse panorama pode ser transposto para atividades como ir a shows e a eventos esportivos ou comer fora.

Na leitura de Dorgan Filho, esse olhar pessimista sobre as atividades de lazer e cultura não está associado só à pandemia. Para ele, há um componente econômico. “As pessoas não estão pensando apenas na doença e em seus desdobramentos”, diz o analista. “Elas também estão de olho na crise econômica. Por isso, não se animam a ampliar gastos mesmo se a pandemia acabar.” Levantamento de abrangência nacional, feito pelo mesmo instituto para o Valor e publicado em 26 de junho, já mostrara que 69% dos brasileiros consideravam “devastador” o impacto do novo coronavírus na atividade econômica nacional.

As mudanças na educação, por sua vez, foram bem recebidas pelos entrevistados. Sobre esse tema, 61% disseram que assistiram a aulas on-line durante o isolamento, ainda que tal prática tenha alcançado outros integrantes de suas famílias. Desse grupo, 77% definiram a experiência como “boa”. As opiniões se dividem quando a pergunta é se a internet deve ser mantida como um recurso didático após a covid. Nesse caso, 47% foram a favor e 44%, contra. Ou seja, deu-se um empate técnico, o que aponta para um impasse.

Na opinião de Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, esse é um tema que ainda vai reder grandes polêmicas. “O que vimos nos últimos meses foram tentativas de ensino remoto, nas quais o professor grava aulas e as disponibiliza para os alunos na internet”, diz o especialista. “Isso está longe do potencial de uso dos objetos digitais no processo de aprendizagem. Esse, sim, é o caminho nesse campo.”

Os cursos livres on-line, por sua vez, fizeram grande sucesso perante a audiência isolada. Uma fração de 34% dos entrevistados afirmou ter usado esse tipo de ferramentas digital na pandemia. O percentual não é arrasador, mas o índice de satisfação dessa turma foi altíssimo: 84% aprovaram a prática, sendo que 95% pretendem mantê-la depois que - e se - a doença for vencida.

Por fim, o levantamento indica que ainda não há sinais da formação de uma onda de solidariedade no país por conta da explosão da covid. Questionados se gostariam denrealizar uma atividade social após a pandemia, 46% dos entrevistados afirmaram que sim. Por sua vez, 54% refutaram essa possibilidade. Entre os mais dispostos a prestar serviços dessa natureza, estão pessoas entre 16 e 44 anos de idade e com maior renda (entre cinco e dez salários mensais ou acima de dez mínimos por mês).

A pergunta que fica é até que ponto as principais mudanças apontadas até aqui vão vingar nas grandes cidades do país. O fato é que, em grande medida, elas estão atreladas ao “home office”. E quanto maior a escala de adoção, maior seu impacto na cena urbana. Para muitos especialistas, o trabalho remoto passou a representar uma possibilidade de economia com despesas de aluguel para as empresas. Daí, a chance dele ganhar alguma tração. Mas a conta final não é tão simples. Dados da JLL, uma empresa global de serviços imobiliários, indicam que os custos com imóveis têm sido um fator crítico na tomada de decisões das companhias, mas equivalem a apenas entre 10% e 15% dos gastos com pessoal.

Na avaliação de Daniel Cherman, da Tishman Speyer, “há muita afobação nesse debate”. O executivo observa que as grandes empresas não estavam investindo por acaso em amplos espaços corporativos antes da pandemia. Elas ofereciam comida, diversão (jogos de mesa, como bilhar e pingue-pongue), além de opções de ginástica para os funcionários, justamente para que eles passassem mais tempo nos escritórios. A ideia por trás desses mimos era ampliar o nível de colaboração e interação entre as equipes para, no fim do dia, criar um ambiente de trabalho mais propício à inovação. “Isso vai mudar?”, questiona Cherman. “Não acredito.”

Ainda assim, pondera Roberta Hodara, especialista em ambientes de trabalho da JLL, o “home office” deve avançar, mas em um processo que está muito próximo de uma flexibilização do que de uma ruptura. É isso o que indica um estudo global realizado pela companhia. “Em média, acreditamos que ele deve atingir entre um e dois dias de trabalho por semana”, diz Roberta. Ainda assim, observa a executiva, essa taxa depende enormemente de fatores como a geografia, o setor, as funções e circunstâncias individuais dos funcionários. Em suma, o fato é que ainda há muito a refletir - e a pesquisar - sobre o tão falado “novo normal”.

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